QI 83 — O Número que as Redes Sociais Adoram Citar e a Burrice Nacional

QI 83 — O Número que as Redes Sociais Adoram Citar e a Burrice Nacional

Eu sou brasileiro. Eu sei, ninguém é perfeito. Sendo este brasileirinho de quinta, todas as vezes que alguém diz que o QI médio do brasileiro é 83 eu levanto as orelhas como um gato, caçador, entre a atenção, o susto e o desespero. Para colocar meu barco em águas mais tranquilas, no texto a seguir, vou tentar entender o que este número significa, de onde ele veio, por que tantos acreditam e de que forma isso é relevante para as nossas vidas. Talvez o meu mar tranquilo sirva para a sua navegação.

Este número assusta por que o valor QI 83 coloca o brasileiro médio perigosamente perto de ser diagnosticado como tendo um retardo mental profundo, ou se preferir reescrevendo nos termos da OMS: o brasileiro médio está perto da deficiência intelectual. Ou ainda, se for mais velho, cru é ríspido, o QI 83 está perigosamente próximo da debilidade mental. Abaixo da estimativa do QI de um chipanzé, mas muito maior que a estimativa do QI do Macaco prego.

Este é o primeiro ponto que você deve guardar: é impossível medir o QI de um macaco, ou de qualquer outra espécie que conhecemos hoje. Mas, sempre podemos estimar.

Os cientistas estimam valores hipotéticos baseados no desempenho em testes cognitivos, resolução de problemas, uso de ferramentas, memória, aprendizado de símbolos/linguagem de sinais etc., comparando estes resultados com o padrão estabelecido para os seres humanos (média 100).

Na internet, em sua imensa estupidez, estas estimativas variam bastante dependendo da fonte e do tipo de teste, mas a título de ilustração aqui os valores aproximados mais citados para as espécies de primatas (macacos no sentido amplo, incluindo grandes símios):

  1. Chimpanzé (Pan troglodytes): estimado em torno de 85–95 (média ~90 em algumas listas menos formais). São os que mais frequentemente aparecem no topo, com habilidades impressionantes em memória de curto prazo, uso de ferramentas e até aprendizado de sinais.

  2. Bonobo (Pan paniscus): estimado em torno de 85–95 (média ~87–90). Muitos pesquisadores consideram os bonobos tão inteligentes quanto ou até ligeiramente mais cooperativos/empáticos que os chimpanzés. Indivíduos como Kanzi são famosos por entenderem centenas de palavras e símbolos.

  3. Orangotango (Pongo spp.): estimado em torno de 75–90 (média ~88). Frequentemente citados como os mais inteligentes em resolução de problemas complexos e planejamento a longo prazo. Alguns estudos colocam eles no topo entre os grandes símios. Existem muitos vídeos de orangotangos selvagens usando ferramentas para resolver problemas complexos.

  4. Gorila (Gorilla spp.): estimado em torno de 70–90 (média ~75–85). Gorilas como a famosa Koko (que aprendeu mais de 1.000 sinais) mostram inteligência alta, mas geralmente um pouco abaixo de chimpanzés e orangotangos em testes comparativos. O par da Koko, o gorila Michael, também aprendeu a linguagem de sinais com humanos e alguns sinais com a própria Koko. Há registros de comunicação entre os dois apenas com sinais e da criação de sinais novos pelo par. Contudo, infelizmente eles não tiveram crias.

  5. Macaco-prego / capuchinho (Sapajus / Cebus): estimado ~45–65. Muito inteligentes para o tamanho, usam ferramentas (pedras para quebrar nozes), mas bem abaixo dos grandes símios.

curiosamente não consegui encontrar nenhuma foto da Koko em domínio público ou sob alguma licença Creative Commons ou que me permitisse publicar aqui.

Não há nenhuma prova científica de que qualquer um dos QI’s dos símios seja verdadeiro. Todos são estimativas que perdem o sentido e o valor aos olhos de qualquer observador mais atento e persistente.

A verdade é que nada disso faz muito sentido a não ser que você entenda o que é média, o que é QI, o que é inteligência e de onde veio este nefasto QI 83.

Vídeo 1: Robin Willians visitando Koko. Os dois ficaram amigos e Koko demonstrou tristeza quando soube do falecimento do ator.

Nosso Conceito de Média Vem da Curva Normal

O segredo mais bem guardado da estatística é o Teorema Central do Limite. Este teorema implica que, quando você soma muitas variáveis independentes e aleatórias (como genética, nutrição, qualidade da escola, estímulo dos pais, saúde na infância), o resultado final tende a formar uma curva em formato de sino, que chamamos de Distribuição Normal, independentemente da distribuição original de cada fator isolado. Por isso, se você medir a altura, o peso ou a pressão arterial de 10.000 pessoas, você provavelmente encontrará a Distribuição Normal. Essa curvinha aí.

Figura 1: imagem gerada pelo NanoBanana em 2026-02-17

A natureza prefere o equilíbrio. Será muito difícil para um organismo, ou sistema, acumular todos os fatores extremos ao mesmo tempo. Para alguém ter um QI 185, ele precisa ter uma genética favorável, excelente nutrição, zero doenças graves na infância e estímulo intelectual intenso. Como a maioria das de nós tem uma mistura de fatores bons e ruins, a massa da população acaba sendo puxada para o centro.

O que torna a Curva Normal especial e simples é a sua simetria: a média, a mediana (o valor que divide o grupo ao meio) e a moda (o valor que mais se repete) são praticamente iguais e ficam no topo do sino.

Fugindo do QI podemos usar a altura humana para explicar a curva, este é o exemplo canônico da distribuição normal. Se medirmos todos os homens adultos de uma cidade grande no Brasil veremos que a maioria deles terá uma altura próxima da média (ex: 1,75m). Porém, à medida que nos afastamos da média (para 1,60m ou 1,90m), o número de pessoas diminui. Da mesma forma, pessoas extremamente altas (2,10m) ou extremamente baixas (1,40m) são raras e ficam nas caudas da curva. A cauda é a área onde o valor da população tende a zero.

A Média é Pobre em Semântica

Para realmente entender a média, você precisa do seu fiel escudeiro: o Desvio Padrão ($\sigma$). O desvio padrão é o valor que indica o quão espalhados estão os dados estão em relação ao centro. Na curva normal simétrica da Figura 1, 68% da população está a apenas um desvio padrão da média e 95% da população está dentro de dois desvios padrões. Volte lá na Figura 1, eu marquei um desvio padrão (1σ ) para cada lado.

Na linguagem coloquial, não científica, que usamos no dia-a-dia, chamamos de normal tudo que está a $1\sigma$ da média e de anormal tudo que está a mais de $2\sigma$ da média. Estes termos vieram da pesquisa científica para o popular e com o tempo ganharam outros significados.

Com QI 83 médio, em uma curva normal perfeita, metade da população brasileira (mais de 100 milhões de pessoas) estaria a esquerda da média e teria um QI abaixo de 83, o que tornaria muito difícil para o país operar tecnologia moderna ou ter uma indústria complexa. Notadamente, porque os extremos da curva, os QI’s muito altos, e muito baixos, representam um número muito pequeno de pessoas para viabilizar um país como o Brasil. A média é importante, mas o formato da curva também é.

Esta é outra informação que você deve guardar: o formato da curva é importante para o entendimento do fenômeno.

Quociente de Inteligência, QI?

O Quociente de Inteligência (QI) é uma pontuação obtida por meio de testes padronizados, elaborados para avaliar certas capacidades cognitivas humanas. Testes sérios, não é uma brincadeira como alguns querem que você acredite.

“O objetivo é classificar as capacidades humanas em faixas. Em vez de medir o conhecimento acumulado, como um exame escolar tradicional, o teste de QI busca quantificar a habilidade de raciocínio lógico, resolução de problemas e reconhecimento de padrões. O objetivo principal é avaliar a capacidade que um indivíduo tem de processar informações e aplicar a lógica abstrata para responder a desafios específicos.”

Este texto que coloquei entre aspas aparece, quase exatamente como está escrito aqui, em todos os sites de psicologia e teste de QI que eu visitei. Mative aqui porque quero que você preste atenção especial neste trecho: quantificar a habilidade de raciocínio lógico, resolução de problemas e reconhecimento de padrões.

Historicamente, o valor do QI era calculado dividindo a idade mental da pessoa pela sua idade cronológica, multiplicando o resultado final por 100. Neste caso, o valor apresentado era a média aritmética simples da faixa na qual o indivíduo se encaixava.

Hoje, a metodologia moderna utiliza mais estatísticas para posicionar a pontuação de um indivíduo em comparação ao restante da população da mesma faixa etária. Nesse sistema, a média é sempre ajustada para o valor 100, com um desvio padrão de 15 pontos, o que significa que a grande maioria da população mundial pontuará entre 85 e 115.

O QI 100 é amplamente considerado como sendo o valor do QI do ser humano médio se a curva de distribuição for normal.

Apesar de ser uma métrica presente em avaliações neuropsicológicas, o teste de QI foca intensamente em habilidades matemáticas, espaciais e linguísticas, deixando de fora aspectos como a emoção, a criatividade e a aptidão social. Além disso, o desempenho nesses testes é profundamente influenciado pelo ambiente, englobando fatores como nutrição infantil, estímulos precoces e a qualidade da educação ao longo da vida.

Guarde essa informação: o desempenho nesses testes é profundamente influenciado pelo ambiente, englobando fatores como nutrição infantil, estímulos precoces e a qualidade da educação ao longo da vida.

Ficou um problema: o que é inteligência

A inteligência é uma daquelas palavras que, ao longo do tempo, foram sendo alteradas para suprir a falta de lexemas adequados ou para dar valor a narrativas políticas seculares.

A palavra inteligência tem sua origem no latim intelligentia, que deriva do verbo intelligere, significando “compreender”, “perceber” ou “entender”. Esse verbo é composto por inter, que indica “entre” ou “no meio de”, e legere, que significa “escolher”, “selecionar”, “recolher” ou “ler”. Etimologicamente, portanto, a inteligência remete à capacidade de “escolher entre” opções, discernir diferenças ou recolher e processar informações de forma significativa. Escolheu certo, inteligência positiva, escolheu errado, inteligência negativa.

Partindo dessa raiz etimológica, podemos extrapolar e definir inteligência como: a faculdade cognitiva que permite ao indivíduo ou sistema selecionar, compreender e aplicar conhecimentos de maneira eficaz, distinguindo o essencial do irrelevante para resolver problemas, adaptar-se a novas situações ou tomar decisões informadas.

Guarde mais essa informação: a faculdade cognitiva que permite ao indivíduo ou sistema selecionar, compreender e aplicar conhecimentos de maneira eficaz, distinguindo o essencial do irrelevante para resolver problemas, adaptar-se a novas situações ou tomar decisões informadas.

Essa noção fundamental de discernimento entre opções evoluiu ao longo do tempo para englobar aspectos como raciocínio, aprendizado e criatividade, mas mantém o cerne da etimologia latina. Podemos enriquecer o conceito de inteligência ao considerar visões complementares de diferentes campos, que reforçam a ideia de inteligência como capacidade adaptativa e seletiva:

  1. Psicologia cognitiva: na tradição psicométrica iniciada por Charles Spearman, a inteligência é modelada como um fator geral ($g$) que explica a correlação positiva entre diferentes habilidades cognitivas. Formalmente, mede-se por desempenho em tarefas envolvendo: raciocínio abstrato; memória de trabalho; velocidade de processamento; compreensão verbal e as capacidades de entendimento visual e espacial. Posteriormente este conceito foi refinado por Raymond Cattell, dividindo a inteligência em refinou o conceito em inteligência fluida ($Gf$): capacidade de resolver problemas novos e inteligência cristalizada ($Gc$): conhecimento acumulado.

Este é um ponto importante da história: Raymond Cattell era um eugenista de carteirinha. Ele foi um apoiador inicial do Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, e aderente a teorias raciais nazistas, o que continuou a influenciar suas ideias, embora tenha tentado obscurecer essas origens após a Segunda Guerra Mundial. Após o conflito, Cattell distanciou-se explicitamente do nazismo, criticando o “militarismo” e o tratamento de judeus e dissidentes por Hitler, mas manteve crenças eugênicas radicais através de sua filosofia “Beyondism” (desenvolvida a partir dos anos 1970), que promovia pureza racial, competição entre grupos étnicos e a eliminação gradual de populações consideradas inferiores para aumentar a aptidão humana.

O problema prático e ideológico de Cattell era que ele vivia aterrorizado pela disgenia, a crença de que as classes e raças consideradas inferiores estavam se reproduzindo mais rápido que a elite intelectual. Pela lógica eugênica, o QI médio da humanidade deveria estar despencando. Mas os dados empíricos da época mostravam o contrário: graças à expansão da educação pública, as notas nos testes de QI estavam subindo.

Para resolver esse problema e salvar sua narrativa supremacista, Cattell precisou mudar o conceito de inteligência. Ele argumentou que a educação estava apenas mascarando a decadência genética da humanidade e, por isso, dividiu a inteligência em duas. A Inteligência Cristalizada ($Gc$) seria o conhecimento cultural e escolar acumulado, a parte poluída pelo ambiente. Já a Inteligência Fluida ($Gf$) seria a capacidade neurológica pura, inata e hereditária. Com esse malabarismo semântico, se um indivíduo de origem inferior fosse bem nos testes graças ao estudo, Cattell podia simplesmente dizer: “Isso é só o $Gc$ dele inflado pela escola, o $Gf$ biológico continua inferior”. Ele moldou o modelo psicométrico para justificar o segregacionismo. Ou seja, ele mudou o sentido semântico do teste que media a inteligência para que este teste fosse adequado aos seus valores pessoais.

Apesar dessa origem nojenta, a maior parte do material sobre inteligência que existe disponível hoje ainda usa as ideias de Cattell. O que, aqui entre nós, e que ninguém nos ouça, é um absurdo completo, depreciando tanto a ciência quanto o estudo da inteligência.

  1. Neurociência: sob a perspectiva neurobiológica, inteligência corresponde à eficiência funcional e estrutural de redes neurais distribuídas, especialmente envolvendo: o córtex pré-frontal (funções executivas) e redes fronto-parietais (integração e controle cognitivo). Alguns modelos contemporâneos associam inteligência à eficiência sináptica, conectividade funcional e capacidade de integração global de informação.

  2. Ciência da computação e inteligência artificial: na ciência da computação, inteligência é frequentemente definida como: capacidade de um agente maximizar uma função objetivo em múltiplos ambientes. Essa formulação é típica da tradição de agentes racionais, formalizada por Stuart Russell e Peter Norvig. Em termos formais, teremos que um agente é inteligente se, dado um histórico de percepções $P_t$, ele seleciona ações $A_t$ que maximizam o valor esperado de uma função de utilidade $U$:

\[A_t = \arg\max_{a} \mathbb{E}[U \mid P_t, a]\]

Russel e Novig trouxeram o conceito semântico de inteligência para o domínio da matemática. Mais tarde, modelos como o de Marcus Hutter (AIXI) formalizam inteligência como maximização universal de recompensa ponderada por complexidade de Kolmogorov. Os dois trabalhos coincidem com o meu conceito de inteligência, citado anteriormente e, sem dúvida, influenciaram minha visão.

  1. Biologia evolutiva: na biologia, a inteligência é uma adaptação funcional que aumenta a aptidão (fitness) por meio de: modelagem interna do ambiente; previsão de estados futuros e tomada de decisão estratégica. Sob esse prisma, inteligência é um mecanismo de redução de incerteza ambiental. Leia com cuidado e verá que novamente, concorda com a minha definição de inteligência.

  2. Filosofia da mente: na filosofia, inteligência relaciona-se à: intencionalidade, representação simbólica e capacidade inferencial. Autores como Daniel Dennett analisam inteligência como um padrão explicativo atribuído a sistemas cuja conduta é melhor descrita sob a postura intencional. Parece ser uma tentativa de usar o conceito semântico original para explicar as relações humanas. Mas, se você pensar sobre isso vai perceber que é uma forma de explicar como resolver problemas explicitada por lexemas adequados ao campo de estudo da filosofia da mente. Neste caso, temos a capacidade de deduzir (escolher baseado em fatos), a representação do problema e a intenção.

Essas perspectivas multidisciplinares reforçam a etimologia original, mostrando que a inteligência, em essência, envolve discernimento, adaptação e processamento seletivo de informações em contextos variados. Mas eu vou resumir em termos leigos:

Inteligência é a capacidade de resolver problemas. Por favor, cite Frank Alcantara para esta frase.

Esta frase separa inteligência de cognição, adaptação e ambiente, é compatível com a biologia, a matemática, a física, a filosofia e a engenharia sem ser dependente de qualquer um destes ramos e permite expandir o conceito de inteligência além do ser humano. Algo que fazemos intuitivamente. Meu gato, por exemplo é muito mais inteligente que eu imaginei que um felino pudesse ser. Dia desses, se me der na telha, defino esta ideia com um pouco mais de rigor matemático, filosófico e científico.

A verdade é que você não escolhe nada se não for para atender uma necessidade. Ou sendo mais direto: para resolver um problema. E quando escolhe certo está sendo inteligente. Quando escolhe errado não está sendo inteligente. Neste contexto o QI mede a capacidade de resolver problemas. Também neste contexto, podemos expandir o QI para criar escalas de comparação entre espécies, apenas observando sua capacidade de resolver problemas.

Talvez você não saiba, mas é possível fazer um teste de QI para pessoas completamente analfabetas. Ou seja, o que o QI mede independe do conhecimento adquirido da pessoa. Porém, parece ser inegável que existe um impulso no QI devido ao acumulo de conhecimento e ao tipo de conhecimento acumulado. Talvez seja por isso que de tempos em tempos vemos gráficos como esse:

Figura 2: um estudo de 2023 relacionou o QI ao campo de estudo nos EUA.

De onde saiu o QI 83 para o Brasileiro

A origem da atribuição de um QI médio de 83 ao brasileiro vem principalmente do livro The Intelligence of Nations, publicado em 2019 pelos pesquisadores Richard Lynn e David Becker, do Ulster Institute for Social Research. Nesse estudo, eles compilaram dados de diversos testes psicométricos realizados no Brasil, principalmente com crianças e adolescentes entre 2001 e 2014, utilizando ferramentas como as Matrizes Progressivas de Raven, um teste não verbal que mede a inteligência fluida e a capacidade de abstração através do preenchimento de padrões lógicos.

Além das Matrizes progressivas de Raven, os autores aplicam ajustes metodológicos, incluindo correções pelo Efeito Flynn, o fenômeno observado mundialmente em que as pontuações médias de QI de uma população aumentam ao longo das décadas devido a melhorias em nutrição e educação, o que exige a atualização constante das normas dos testes.

Por fim, o estudo também utiliza ponderações por qualidade de amostra e integração de avaliações escolares como o PISA. O resultado final é uma estimativa de QI nacional de 83,38 para o Brasil.

Em trabalhos anteriores de Lynn, como o de 2002 (IQ and the Wealth of Nations), o valor para o Brasil era de 87, mas foi revisado para baixo na atualização de 2019. Outras fontes variam entre 83 e 87, dependendo da metodologia, mas o número exato de 83 é frequentemente ligado a essa publicação de 2019.

Essa estimativa é controversa devido a críticas sobre a representatividade das amostras (foco em regiões urbanas como São Paulo e Belo Horizonte), variações étnicas e fatores socioeconômicos não totalmente considerados. As críticas não são limitadas ao valor encontrado para o Brasil, alguns pesquisadores de outros países atacam a obra de Flynn destacando um viés racista e eugenista.

Se olharmos com cuidado o concesso acadêmico veremos que O trabalho de Lynn é, no mínimo, controverso. Seus achados são contestados por psicólogos (ex.: Jelte Wicherts, que mostrou viés em dados africanos, aplicável a contextos semelhantes), sociólogos e geneticistas, que rejeitam o conceito de QI nacional. A visão mainstream é que diferenças em QI são majoritariamente ambientais, não genéticas, e que o trabalho de Lynn promove racismo científico.

Em resumo, o consenso científico, representado por organizações como a APA e meta-análises publicadas em revistas como PNAS e Psychological Bulletin, afirma que efeitos sócio-ambientais (nutrição e educação, por exemplo) são predominantes em diferenças de QI entre grupos e ao longo do tempo, embora interajam com a genética em níveis individuais. Esses trabalhos refutam visões hereditárias extremas e enfatizam intervenções ambientais para mitigar desigualdades.

Mais uma para você guardar: efeitos sócio-ambientais (nutrição e educação, por exemplo) são predominantes em diferenças de QI entre grupos e ao longo do tempo, embora interajam com a genética em níveis individuais.

Porque Tantos Acreditam no QI 83

Se o trabalho que originou o QI 83 é tão controverso, e os cientistas envolvidos têm fama de monstros, como tantos acreditam nisso?

A resposta mais cínica é que tantos acreditam nisso simplesmente porque é verdade. Simples assim. Se a média do QI do Brasileiro for 83 o número de pessoas incapazes de entender este problema é tão grande que sim, milhões acreditarão. Ou seja, o assunto é complexo de tal forma que a quantidade de pessoas que acredita no resultado valida o próprio resultado.

Deu para ver como é complicado?

Com dois neurônios você precisa saber que se o estudo é polemico, você não pode aceitar que conclusões são verdadeiras. Com três deve saber que não deve aceitar, sem contestar, nem os estudos que têm o famoso consenso da comunidade.

O consenso é implacável e inútil.

  1. Até 1609 o concesso científico dizia que o sol girava em torno da Terra. Copérnico foi ridicularizado até Galileu apontar uma luneta para Júpiter e encontrar pequenas esferas orbitando o planeta.

  2. Na década de 1830 o médico Ignaz Semmelweis foi parar no manicômio por ter ido contra o concesso e dizer que os médicos precisavam lavar as mãos entre pacientes.

  3. Até 1950 a lobotomia, retirada de uma parte do cérebro, era o tratamento indicado para depressão e TOC. A essa hora eu estaria babando e tremendo em algum asilo. O último procedimento registrado foi na França em 1986.

  4. Até 1970 o universo estava comprimindo, ou no mínimo desacelerando. Hoje o concesso diz que ele está acelerando.

O consenso é só um momento congelado no tempo. Representa um ponto específico no processo de evolução do conhecimento. Historicamente, defender o consenso como uma verdade absoluta se mostrou uma decisão estúpida.

Pode ser mais simples que isso, pode ser simplesmente porque todos os dias, as redes sociais mostram coisas como o Bar dos Ratos.

Vídeo 2: Bar dos Ratos. Um evento social de jovens dançando dentro de um esgoto.

Ou pode ser porque usamos muito as redes sociais.

Figura 3: pequeno gráfico mostrando os países com mais uso de redes sociais.

Afinal, não faltam estudos indicando que as redes sociais tem impacto negativo no QI. Porem, deixando o cinismo e o fígado de lado, podemos tentar voltar um pouco. Lembra dos efeitos sócio-ambientais, como a educação e a nutrição, sobre o QI?

O Que os Brasileiros Dizem Sobre os Brasileiros

Enquanto Lynn e Becker olhavam o Brasil de fora, com amostras concentradas em regiões urbanas e instrumentos calibrados para outras populações, existe um indicador produzido dentro do país que mede, com metodologia rigorosa, o que o brasileiro de fato consegue fazer com a leitura e o cálculo no dia a dia. Esse indicador é o INAF, o Indicador de Alfabetismo Funcional, produzido pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa.

Observe que aqui, estou fazendo uma concessão, de coração, ao trabalho de Cattell, que era tão, ou mais racista que Lynn e considerando que existe um impacto relacionado ao acumulo de conhecimento sobre o QI. Uma concessão muito, muito grande.

O INAF não pergunta ao brasileiro qual é o seu QI. Ele apresenta tarefas concretas: interpretar uma bula de remédio, calcular o troco de uma compra, entender um aviso de cobrança. Em outras palavras, ele mede exatamente o que a etimologia da palavra inteligência nos diz que ela é: a capacidade de resolver problemas reais.

Botei a palavra reais aqui só para concordar com os textos do INAF e para não perder a linha de raciocínio. Se estiver perdido, volte no começo.

Os resultados do estudo mais recente, divulgado em 2025 com dados de brasileiros entre 15 e 64 anos, são desconfortáveis, mas honestos:

  1. 29% da população se enquadra na categoria de analfabeto funcional, o que significa que quase um em cada três brasileiros tem muita dificuldade para interpretar textos curtos ou realizar operações matemáticas elementares, como calcular um desconto ou ler o horário de um ônibus.

  2. Apenas 10% da população atinge o nível proficiente, a capacidade de elaborar textos complexos, integrar informações de múltiplas fontes e interpretar dados estatísticos.

Todo mundo foca nos 29%, eu vou voltar a isso. Mas agora vamos olhar para os 10%. Estes 10%, mais ou menos 20 milhões de pessoas, são as pessoas capazes de resolver problemas complexos. Se olharmos do melhor para o pior existe uma faixa de 61% que está entre proficiência e analfabetismo funcional.

A título de comparação, nos países escandinavos e no Japão, a proporção de adultos no nível proficiente ou equivalente supera 40%. O consenso científico diz que isso deve ser o resultado de décadas de investimento consistente na educação. E, pode ser exatamente isso.

Nós sabemos que existe um fator genético no QI, mas nunca conseguimos definir este fator sem cair nas armadilhas da eugenia e do racismo. Também sabemos que fatores como alimentação e educação afetam o QI. Então, sim, pode ser que alguns países tenham o QI médio maior que outros graças a educação e alimentação de qualidade, por décadas.

Guarde mais essa: o analfabetismo funcional é a impressão digital do abandono educacional, não da incapacidade cognitiva inata.

Em resumo: um sujeito lá do Reino Unido diz que o QI médio do brasileiro é 83, dizendo que metade da população tem retardo mental. Nós fazemos um estudo aqui e achamos que apenas 29% são analfabetos funcionais.

O problema acontece quando você faz as conexões das premissas: sabemos que a educação afeta o QI, sabemos que 61% está abaixo do bom, e que 29% está no nível muito ruim. Neste cenário, independente da raça ou da nacionalidade é possível imaginar uma curva de distribuição como a Figura 3.

Figura 4: distribuição hipotética do QI na população brasileira com média QI 83

Até onde eu sei, no Brasil, nunca foi realizada uma pesquisa abrangente de QI, puro e simples, sem levar em conta educação, nutrição, raça, herança genética, gênero, sexo, idade. Um simples teste da capacidade de resolução de problemas adequado as características de quem é alfabetizado, ou não. Faltando este teste, eu posso chutar qualquer distribuição que eu imaginar para validar o QI 83.

Na Figura 4 eu criei uma curva binormal, com uma concentração de alto QI proporcional tanto aos 10%, quanto aos 29% encontrados pelo INAF de forma que a média seja QI 83. Eu posso brincar com isso o dia todo e criar curvas como essa com a distribuição que eu quiser mantendo sempre a média 83.

E onde Chegamos com Isso Tudo

Esqueçam o QI 83 por um minuto. O Efeito Flynn descreve como o QI médio global subiu cerca de 3 pontos por década no século XX. Como a genética humana não muda tão rápido, isso parece indicar que que melhorias em nutrição, saneamento básico e educação infantil expandem o desenvolvimento cognitivo.

Aqui está o ponto mais importante de todo este texto: este QI 83 pode ser verdadeiro e resultado de educação de péssima qualidade.

Um analfabeto funcional, é incapaz de entender textos curtos ou realizar operações matemáticas elementares, como calcular um desconto ou ler o horário de um ônibus. Mas isso não é um degrau, existem graus diversos de analfabetismo funcional. Talvez a pessoa seja capaz de ler o horário do ônibus mas não seja capaz de entender juros, ou seus direitos legais.

Alguns analfabetos funcionais estão sendo formados em cursos superiores agora mesmo, enquanto você está lendo este texto. Outros, não terminaram nem o primeiro grau.

Para colocar esses 29% de analfabetos funcionais em uma perspectiva brutalmente prática e trazer o problema para o nosso dia a dia, podemos usar um pouco de probabilidade, a famosa regra do evento complementar. Se você quiser saber a chance de ter pelo menos um analfabeto funcional na sua próxima reunião, o jeito matemático mais elegante não é somar as probabilidades individuais, mas calcular a chance de todo mundo ali ser plenamente capaz de interpretar um texto (os 71% restantes) e subtrair isso do total.

A matemática é implacável: se você reunir aleatoriamente apenas 3 brasileiros, a chance de que pelo menos um deles não consiga entender um gráfico simples ou calcular um desconto já salta para assustadores 64,2% ($100\% - 0,71^3$).

Se a sua mesa de bar ou a equipe do projeto crescer para 4 pessoas, essa probabilidade sobe para quase três em quatro, batendo a marca de 74,6%. E se você juntar 5 brasileiros em uma sala, existe uma chance esmagadora de 82% ($100\% - 0,71^5$) de que a barreira do alfabetismo funcional esteja sentada ali com vocês.

Eu vejo o QI 83 como uma bandeira para você não esquecer as dificuldades do nosso país quando estiver conversando, ou negociando com alguém. O buraco educacional não é algo abstrato que acontece apenas nas estatísticas ou longe das grandes capitais ele permeia todas as nossas relações. Eu, você, seus parentes, amigos, chefes, professores, todos nós fomos formados no Brasil. Qual de nós é analfabeto funcional?

Referências

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